Zine O pessoal é político

Sobre o artigo O pessoal é Político

Carol Hanisch é feminista radical e jornalista, que em 1969 escreveu O pessoal é político em resposta a uma provocação feita pelos movimentos de esquerda aos grupos do Women’s Liberation. O movimento Women’s Liberation (WLM) foi talvez o principal movimento feminista do séc. XX, que entre as décadas de 60 e 80 se espalhou da América do Norte por todos os continentes do mundo, por meio de mulheres que se organizavam em pequenos grupos locais, alinhados ao feminismo radical. As feministas do WLM vinham realizando encontros em que compartilhavam relatos sobre suas vidas pessoais com mais frequência do que planejavam ações de ativismo. A esquerda marxista, convicta de que o problema da mulher se resumia ao problema do trabalhador, portanto a destruição do sistema econômico e de classes bastaria para sua libertação, não via como a discussão de problemas pessoais seria relevante para uma luta focada na política, no interesse da coletividade (de trabalhadores, de estudantes, pelos direitos civis, contra a guerra).

WLM no Protesto Miss América, 1968

Em O pessoal é político, Hanisch elabora por que trazer as questões consideradas de foro íntimo à discussão pública é um método válido de articular teorias políticas e elaborar ações de militância. Por meio dos encontros da WLM, em que compartilhavam suas vivências e sentimentos particulares, as feministas ligaram os pontos e realizaram que passavam por muitas situações de opressão em comum, cujas violências se desenvolviam sob os mesmos padrões. As mulheres chegaram à conclusão de que seus sentimentos de insatisfação compartilhavam das mesmas raízes de opressão, que não estavam apenas localizadas na luta de classes, mas no próprio sexismo. Perceberam que estavam tentando resolver o que achavam ser problemas privados por meio de soluções pessoais, quando na verdade elas viviam problemas políticos em suas vidas íntimas, e precisavam de soluções coletivas para lidar com eles.

O pessoal é político foi escrito em 1969, editado e publicado em 1970 pelas também feministas radicais, Shulamith Firestone (autora da Dialética do sexo) e Anne Koedt (autora do artigo Myth of the vaginal orgasm). Esse texto integrou uma antologia que reunia diversos artigos sobre o segundo ano de articulação do movimento Women’s Liberation de Seattle, chamada Notas do segundo ano: Women’s Liberation (tradução livre). Também em 1970, Shulamith Firestone publicou a Dialética do sexo em que relata a história e exalta as “políticas pessoais”, desenvolvidas pelos grupos de conscientização (como Hanisch os chama) do WLM. Ela também faz críticas à insistência da esquerda em reduzir a opressão da mulher à opressão de classe, desprezando as pautas das feministas em relação às questões sexuais. Já nos anos 70 as mulheres chegaram à conclusão de que a abolição das classes não implica a eliminação do sexismo, assim como não determina o fim do racismo.

Hanisch, em seu site oficial, oferece (em inglês) uma introdução ao Pessoal é político, em que explica mais detalhadamente o contexto de sua publicação e faz algumas ressalvas. É importante observar que ela se refere às pessoas que buscam terapia profissional como doentes, reproduzindo o tabu da terapia e do cuidado com a saúde mental. Também é um texto heteronormativo, sendo que a autora considera a lesbianidade como uma prática sexual (como o celibato ou o o fetichismo) e não como uma orientação sexual. É um texto branco, que ao citar pessoas negras as posiciona sempre à parte do movimento Women’s Liberation e das possíveis leitoras. A noção de que o pessoal é político também está presente entre mulheres que não se identificam como feministas, mas que se reconhecem umas às outras enquanto participantes de um mesmo tipo de classe e que tem forte senso de comunidade. Isso se expressa, por exemplo, nas movimentações de mulheres para denunciar publicamente e punir coletivamente os predadores sexuais, em diversos contextos culturais e econômicos.

O que mais gosto nesse texto é que ele não é nada acadêmico, tem um formato bem próximo do que poderia ser um mero textão no Facebook. Também é uma boa introdução para a autogestão e articulação de grupos de conscientização entre mulheres. Gosto que por meio de uma boa edição (do título, por exemplo) e uma distribuição bem sucedida (impressos datilografados, xerocados como zines), esse textão pré-Facebook foi valorizado como um clássico da literatura feminista, traduzido em diversos idiomas e lido até hoje. Sendo um pequeno texto de importância histórica, o traduzi e diagramei em formato de zine, para impressão, e também num formato para leitura digital.

 

DOWNLOAD DA ZINE

Baixar a zine para impressão (9,64MB)

Consiste em 3 folhas de tamanho A4, que devem ser impressas frente e verso, depois sobrepostas, dobradas e grampeadas ao meio, para formar um livrinho de tamanho A5 e com 12 páginas (contando com as capas). A primeira folha do arquivo (páginas 01 e 02 do pdf) refere-se à capa da zine. As demais páginas são o conteúdo.

 

Baixar .pdf para leitura digital (3,75MB)

 

A Lilith de Carol Hanisch

 

Uma das minhas partes preferidas do Pessoal é político é a citação que a Hanisch faz, de uma personagem de alguma história em quadrinhos, que diz “eu estou mudando. Minha mente está criando músculos.” Pra mim, “criar músculos no cérebro” como analogia ao desenvolvimento da inteligência é uma imagem muito boa. A pista é que esse quadrinho de alguma forma se relacionava com o nome “Lilith”. Fui atrás de descobrir que história em quadrinhos era essa mencionada por Hanisch e cheguei aos Jovens Titãs, a série da DC.

Em 1969 era apresentada nessa série a nova integrante dos Jovens Titãs, Lilith Clay, uma jovem telepata que ainda aprendia a lidar com seus poderes psíquicos. Ela descobriu ser adotada assim que seus poderes se manifestaram aos 13 anos, deixando a casa dos pais adotivos para buscar por pistas da sua mãe biológica. Lilith trabalhava como dançarina de uma boate, quando teve seu primeiro encontro com o grupo de super hérois. Pra mim parecia óbvio que era essa Lilith Clay, a Lilith mencionada no Pessoal é político. Achei para baixar e li todos os quadrinhos dos Jovens Titãs publicados entre 1966 e 1977, mas não encontrei o momento da citação que Hanisch fez. Mesmo assim foi legal fazer a leitura, são quadrinhos divertidos com desenhos e cores muito lindos.

Mandei então um e-mail para o contato indicado no site oficial da Carol Hanisch. Não demorou muito e a própria respondeu minha dúvida: Lilith diz respeito a uma publicação do Women’s Liberation. A edição da revista Lilith, em que se encontra a história em quadrinhos mencionada em O pessoal é político, pode ser inclusive visitada no site Redstockings, que funciona como um grande arquivo virtual de materiais da WLM. A hq em questão foi desenhada por uma mulher identificada como “Hanako”, cuja personagem se transforma numa super heroína, BITCH, à medida que se tornam insuportáveis as merdas sexistas impostas sobre ela. Que coincidência, a edição da revista feminista Lilith de 1970 publicar um quadrinho com uma personagem cujo cérebro se fortalece, simultaneamente ao lançamento pela DC de uma super heroína chamada Lilith Clay que tem poderes de telepatia.

Fiquei bem satisfeita com esse mistério e a resolução. 🙂

Fiz uma versão traduzida do quadrinho da Hanako, que está dentro dos arquivos pra download nesse post.

Bons links:

Site oficial da Carol Hanisch, com as versões originais dos seus artigos.

outra tradução do Pessoal é político em português, de tradução livre por uma pessoa anônima.

Site Redstockings, onde é possível baixar a revista Lilith digitalizada.

Existe um arquivo digitalizado do livro A dialética do sexo, da Shulamith Firestone em português, mas parcial da obra. A Universidade de Brasília possui um exemplar da edição dos anos 70, em português, disponível para leitura na Biblioteca Central.

Aqui há uma versão online e em espanhol do Mito do Orgasmo Vaginal da Anne Koedt.

Esse é o link para baixar as histórias em quadrinhos dos Jovens Titãs de 1966 a 1977.

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